WeTransfer recua: não usará seus arquivos para treinar IA

Quem se viu no centro de uma intensa controvérsia em razão de uma mudança em seus termos de serviço nessa última semana, foi a WeTransfer, plataforma holandesa amplamente usada por milhões de profissionais criativos em todo o mundo. A alteração, que passaria a vigorar em 8 de agosto, incluía um trecho polêmico concedendo à empresa uma licença “perpétua, mundial, não exclusiva, livre de royalties, transferível e sublicenciável” para usar o conteúdo enviado por seus usuários — incluindo fotos, vídeos e textos — com o objetivo de “operar, desenvolver, comercializar e melhorar o serviço ou novas tecnologias, incluindo melhorar o desempenho de modelos de aprendizado de máquina que aprimoram nossa moderação de conteúdo”.

Rapidamente, o novo texto despertou receio entre ilustradores, cineastas, jornalistas e outros profissionais, que entenderam que seus arquivos poderiam ser utilizados para treinar IA sem compensação ou autorização. O portal espanhol El País destacou que “los usuarios ceden a WeTransfer una licencia perpetua… para entrenar sistemas de inteligencia artificial”. Usuários passaram a relatar, em redes como X, que considerariam encerrar o uso da plataforma — especialmente aqueles que trabalham com conteúdos protegidos por direitos autorais.

Em resposta à onda de críticas, a WeTransfer esclareceu que jamais utilizou conteúdo de clientes para treinar seus modelos de IA nem planeja fazê-lo. Um porta-voz afirmou à BBC: “Não usamos aprendizado de máquina nem qualquer tipo de IA para processar o conteúdo compartilhado… nem vendemos conteúdo ou dados a terceiros”. Essa declaração também foi reforçada por veículos como The Guardian, que registraram o recuo oficial da empresa, garantindo que a linguagem ambígua dos termos havia sido alterada apenas para tornar o texto mais claro — sem mudanças na prática de manuseio dos dados.

O Ministério da Criticidade (TNW), em análise fina, destacou que WeTransfer “descobriu que o trecho era ambíguo o suficiente para abrir caminho ao treinamento de IA” e que, embora a cláusula ainda buscasse viabilizar futuras ferramentas de moderação inteligente, ela nunca foi implementada na prática. Já a TechRadar observou que a empresa “apagou menções a aprendizado de máquina e prometeu que não usará os dados sem permissão”.

O fallout foi imediato: artistas e freelancers, citados no The New York Times e BBC, compararam a situação a episódios similares envolvendo Dropbox e Adobe — empresas que também corrigiram textos legais para evitar confusão sobre o uso de dados para IA . A WeTransfer se apressou a divulgar em seu blog oficial um post intitulado “WeTransfer Terms of Service — What’s really changing”, afirmando que a alteração visa unicamente tornar os termos mais acessíveis, sem implicar qualquer uso de arquivos de usuários para treinar IA. A empresa reiterou que os uploads permanecem propriedade integral dos usuários, conforme seção 6.2 dos termos (“você mantém todos os direitos de propriedade intelectual”).

Duas datas são fundamentais para a compreensão do ocorrido: a atualização dos termos foi divulgada em meados de junho, com vigência prevista para 8 de agosto de 2025, e o ocorrido provocou a revisão emergencial realizada em 15–16 de julho de 2025, quando WeTransfer emitiu os esclarecimentos formais e removeu a menção a “aprendizado de máquina” .

A trajetória desses eventos reflete uma tensão crescente entre plataformas online e a comunidade criativa, neste momento em que o uso de dados para treinar Inteligência Artificial suscita crescentes alertas éticos e jurídicos. A reação pública, incisiva e imediata, demonstrou que qualquer ambiguidade envolvendo propriedade intelectual ou permissões de uso pode afetar seriamente a confiança dos usuários.