A Netflix confirmou oficialmente que utilizou inteligência artificial generativa (GenAI) em uma de suas produções originais, marcando um marco significativo na história da plataforma. Durante a divulgação dos resultados do segundo trimestre do ano em teleconferência com investidores, o co‑CEO Ted Sarandos declarou que uma sequência de efeitos visuais na série argentina de ficção científica The Eternaut (ou El Eternauta) foi criada com auxílio da IA.
Segundo Sarandos, a cena retrata o colapso de um prédio em Buenos Aires, e foi produzida com uma combinação de ferramentas de IA generativa operando junto à equipe de VFX interna (Eyeline Studios). O resultado foi uma produção apresentada finalmente em tela — a primeira vez na história da Netflix que material gerado por IA acabou no corte final de uma série ou filme original. Esse processo foi dez vezes mais rápido do que métodos tradicionais de efeitos visuais, além de substancialmente mais barato, tornando-o viável dentro do orçamento modesto da produção.
Sarandos reforçou que a IA está sendo usada para potencializar a criatividade, não substituir os criadores. “São pessoas reais realizando trabalho real com melhores ferramentas”, disse, destacando sua aplicação em pré-visualização, planejamento de cenas e efeitos visuais .

Além do episódio específico, foi ressaltado que Netflix também está expandindo o uso de IA em outras frentes da plataforma. O co‑CEO Greg Peters indicou que GenAI está sendo empregado na busca por voz, na personalização de conteúdo e em tecnologias de anúncio interativo. Peters mencionou planos para integrar produtos virtuais em séries (como Stranger Things) por meio de IA, além de continuar aprimorando a experiência do usuário .
Esse anúncio ocorre em meio a um momento de crescimento financeiro da empresa: o segundo trimestre de 2025 registrou US$ 11,08 bilhões em receita e US$ 3,1 bilhões em lucro, impulsionado por sucessos como as últimas temporadas de Squid Game, Black Mirror e a popular minissérie britânica Adolescence.
A decisão de usar IA gerou debates importantes na indústria. Críticos apontam riscos como a automação de funções criativas, impacto em empregos técnicos (especialmente no setor de VFX) e questões de direitos autorais sobre obras geradas por IA. Durante as greves de roteiristas e atores em 2023, o uso de IA foi um ponto central nas negociações, com sindicatos exigindo regulamentação e limites para proteger a autoria humana . No entanto, Sarandos sustenta que esse modelo visa apoiar os profissionais, ao invés de substituí-los.
Em resumo, a decisão da Netflix de utilizar IA generativa em The Eternaut — especialmente na sequência do prédio em colapso — é um marco em produções audiovisuais. Tornou possível criar um conteúdo visual sofisticado dentro de restrições orçamentárias, com rapidez e menor custo. É também um claro sinal de onde a plataforma pretende avançar: integrar tecnologia de ponta ao processo criativo, permitindo que até produções menores alcancem níveis visuais antes inacessíveis, mas sempre com supervisão humana e responsabilidade criativa.

