Cientistas acreditam estar diante de um dos mais valiosos “portais do tempo” da Terra: um núcleo de gelo extraído do interior da Antártica com aproximadamente 1,5 milhão de anos. Esse bloco, denominado “ice core” e perfurado no remoto local chamado Little Dome C, já foi transportado à Reino Unido, onde pesquisadores do British Antarctic Survey (BAS) iniciarão a próxima etapa do estudo: o derretimento gradual em laboratório para analisar amostras de ar, partículas atmosféricas, cinzas vulcânicas e até micro-algas preservadas no interior do gelo.
O projeto, chamado Beyond EPICA – Oldest Ice, faz parte de esforços da comunidade científica internacional para desvendar os segredos do clima pré-histórico. Os núcleos, com até 2,8 km de comprimento, foram cuidadosamente extraídos entre 2021 e 2025 e contêm registros gasosos que remontam ao chamado Mid‑Pleistocene Transition, período entre 900 mil e 1,2 milhão de anos atrás, quando ciclos glaciais mudaram de um intervalo de 41 mil para 100 mil anos.

Vestígios de períodos de extinção humana — quando a população mundial teria sido reduzida a meras mil pessoas — podem estar dentro dessas bolhas de ar, oferecendo pistas inéditas sobre a dinâmica climática e seus impactos na evolução da sociedade moderna.
Agora, pelo menos sete semanas foram programadas na Cambridge Ice and Climate Lab, sede do BAS, para descongelar o gelo milenar de maneira meticulosa, utilizando a técnica de continuous flow analysis. Esse método permite controlar o derretimento e monitorar cada gota que escorre, capturando informações sobre CO₂, metano, inkas de temperatura e traços de partículas.
A jornalista Ellyn Lapointe, do blog Gizmodo, destacou que o derretimento científico permitirá rastrear cenários climáticos há 1,5 milhão de anos, potencialmente elucidando “por que o ciclo glacial passou de 41 mil para 100 mil anos” — um enigma central para cientistas do clima.

Além disso, a descoberta chegará ao Reino Unido em seções de um metro mantidas a −50 °C, com destino à Cambridge após transporte seguro via Trieste e Bremerhaven, na Alemanha. Neste ano, o Guinness Book já reconheceu esta missão como a perfuração do núcleo de gelo mais antigo já obtido.
A importância desse derretimento não pode ser subestimada. Até hoje, os núcleos de EPICA e NGRIP mantinham registros climáticos que remontam a cerca de 800 mil anos. Este gelo, ao dobrar esse período, permitirá projetar modelos mais precisos para a dinâmica de gases de efeito estufa e os limites de aquecimento global.
Cientistas, como a chefe de pesquisa de ice cores do BAS, Liz Thomas, afirmam que o processo é “ambicioso”, mas essencial para compreender “os diferentes pontos de transição do nosso planeta e nos preparar para o futuro”.
Enquanto o mundo acompanha o aquecimento global e seus efeitos, esta janela congelada no tempo revela detalhes antes invisíveis — como erupções vulcânicas, variações de micro-organismos atmosféricos e composição química que só poderiam ser vistos com este gelo excepcionalmente antigo.
Em síntese, o processo de derretimento controlado do núcleo de gelo com 1,5 milhão de anos não é apenas um feito tecnológico e científico. Ele representa um passo decisivo para entender as raízes profundas das mudanças climáticas, fundamentar os modelos contemporâneos e, possivelmente, sinalizar ações mais efetivas para mitigar riscos futuros. Uma verdadeira ponte entre o passado remoto da Terra e o nosso presente.
