Nesse final de semana experimentamos pela primeira vez o acesso ao estádio do São Paulo FC, o Morumbis utilizando reconhecimento facial. A expectativa era grande e um certo temor em ficarmos retidos em filas imensas foram dissipados logo na chegada à rampa de acesso à arquibancada Norte. Quase não haviam filas e o processo de identificação foi rápido.
A tecnologia de reconhecimento facial vem sendo cada vez mais adotada nos estádios do Campeonato Brasileiro como ferramenta de segurança e controle de acesso, conforme determina a Lei Geral do Esporte (Lei 14.597/2023). A partir de 14 de junho de 2025, estádios com capacidade superior a 20 mil pessoas passaram a ser obrigados a utilizar biometria facial e monitoramento das catracas—um marco para clubes e torcedores no Brasil.
A experiência mais antiga e emblemática no país ocorreu no Estádio Hailé Pinheiro (o “Serrinha”), em Goiânia, casa do Goiás Esporte Clube. Desde meados de 2022, o clube implantou a tecnologia de reconhecimento facial em todas as entradas do estádio, tornando-se pioneiro no Brasil. O sistema permitiu cadastrar cerca de 210 mil torcedores, dos quais aproximadamente 30 mil têm entre 2 e 14 anos, o que gerou controvérsia por violar diretrizes legais que restringem o uso de biometria em menores de 16 anos.
A adoção da tecnologia pelos clubes da Série A e B representou investimento significativo: estima-se que 15 dos 20 clubes da Série A investiram mais de R$ 100 milhões para adequação de infraestrutura, com sistemas integrados de catracas e inteligência artificial capazes de processar até 500 torcedores por minuto, de modo a melhorar a agilidade no acesso e reduzir práticas de cambismo. Estádios como os do Palmeiras (Allianz Parque) e Santos (Vila Belmiro) já operavam com o sistema desde 2023 e 2024, respectivamente. O São Paulo ativou o reconhecimento facial somente em maio de 2025, e o Corinthians implementou o modelo na Neo Química Arena em junho de 2025, pouco antes da partida contra o Bragantino — com taxa de falhas inferior a 0,5% segundo o clube.
O funcionamento baseia‑se no cadastro prévio do torcedor, que envia foto e documento pelo site ou aplicativo do clube; no dia do jogo, sua identidade é validada nas catracas biométricas, sem ingresso físico ou QR code necessários. Empresas como a Imply integraram o sistema à plataforma CORTEX, do Ministério da Justiça, conferindo maior confiabilidade na verificação facial e correspondência com bases institucionais ge.
A tecnologia tem mostrado resultados concretos: no caso do Goiás, houve um forte aumento no público médio de 1.143 para mais de 8.600 torcedores, entre 2022 e 2024 e quedas quase totais nas ocorrências policiais dentro do estádio. A segurança foi reforçada, e o público familiar voltou a frequentar os jogos com maior tranquilidade.
Quanto ao bloqueio de pessoas proibidas judicialmente: sim, esse é um dos principais benefícios. Indivíduos com mandados judiciais ou condenações relacionadas a violência em estádios ou delitos são barrados automaticamente ao serem reconhecidos. Clubes como Palmeiras relataram uso do sistema para identificar torcedores procurados pela justiça, em consonância com políticas como o programa Muralha Paulista.
Tais sistemas não se restringem a São Paulo ou Goiás: o uso já está implementado em estádios de Fortaleza, Ceará, Sport (Recife), América-MG, Atlético-MG, Internacional, Vasco e Botafogo, entre outros, totalizando arenas em várias regiões do país que já operam reconhecimento facial ou estão em processo de integração até o prazo estabelecido em junho de 2025.
Entretanto, o uso da tecnologia levanta desafios éticos e legais. Relatórios do grupo O Panóptico (CESeC) apontam que o cadastramento de crianças e adolescentes viola o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) e diretrizes da LGPD, podendo causar erros de identificação, impedimentos injustos de acesso ou até detenções equivocadas. Estudos indicam taxas de erro significativamente mais altas entre mulheres negras, por exemplo. A ANPD já iniciou fiscalização em 23 clubes para verificar se as práticas de transparência e impacto protegem adequadamente os dados sensíveis de menores e torcedores em geral.
Em resumo, o uso de reconhecimento facial nos estádios brasileiros do Brasileirão é uma realidade oficial e legalmente respaldada desde junho de 2025, abrangendo quase todo o país, especialmente locais com capacidade acima de 20.000 pessoas. A tecnologia tem melhorado a segurança, reduzido o cambismo e evitado o ingresso de pessoas proibidas judicialmente. Contudo, requer rígido controle sobre privacidade, impacto em menores e possíveis falhas técnicas que demandam mecanismos humanos de revisão e transparência nos processos.

