Um grupo de cosmólogos liderado pelo professor Enrique Gaztañaga, do Instituto de Cosmologia e Gravitação da Universidade de Portsmouth, publicou um artigo no periódico Physical Review D propondo que o universo teria se originado dentro de um buraco negro. Segundo esse modelo, chamado de “Black Hole Universe” ou “Universo‑buraco negro”, a nossa realidade teria se formado a partir de um colapso gravitacional em outro universo, seguido de um rebote quântico, não de uma explosão originada ex nihilo (do nada).
No lugar da singularidade infinita do Big Bang, onde as leis da física colapsam — o novo modelo sugere que o colapso entra em contato com os efeitos da mecânica quântica, em particular o princípio de exclusão de Pauli. Esse efeito impede que férmions sejam comprimidos indefinidamente, gerando então uma força repulsiva (ou torção) que detém o colapso. A partir daí, ocorre um rebote gravitacional, expandindo um novo espaço-tempo que corresponde ao nosso universo. Esse processo seria regido pela teoria de Einstein–Cartan, uma extensão da relatividade geral que inclui spin e torção, sem uso de física especulativa.
O modelo de Gaztañaga descreve detalhadamente que o universo‑mãe sofreria um colapso até atingir densidades em que os férmions não podem mais ser comprimidos, resultando num rebote que produziria um universo interno em expansão. Essa expansão natural geraria, sem campos inflacionários adicionais, tanto a fase inflacionária primordial quanto a aceleração cósmica recente, geralmente atribuída à energia escura. Além disso, o evento de rebote ocorreria dentro do horizonte do buraco negro e seria invisível para observadores externos, funcionando como uma espécie de novo tipo de Big Bang cloaked, ou encoberto.
Outro cientista que explorou ideia semelhante é o físico teórico Nikodem Popławski, da Universidade de New Haven. Ele defende que cada buraco negro, na teoria de Einstein–Cartan, evita a singularidade por meio da torção, sofre um rebote e dá origem a um universo fechado, separado do universo‑mãe por um horizonte de eventos. Esse universo-filho teria expansão, isotropização e propriedades compatíveis com nosso universo observável. O cenário também resolve naturalmente o paradoxo da flecha do tempo e gera inflação cósmica sem hipóteses adicionais.
O modelo traz ainda previsões testáveis. Por exemplo, ele sugere que nosso universo deveria ter uma curvatura espacial ligeiramente positiva, em vez de ser perfeitamente plano. Missões espaciais como a Euclid, da ESA, poderiam eventualmente confirmar essa leve curvatura. Isso reforçaria a ideia de que emergimos de um rebote gravitacional, e não de uma singularidade infinita.
Além disso, padrões de rotação preferencial em galáxias, detectados em dados do Telescópio Espacial James Webb, podem sugerir que herdamos a rotação do buraco negro‑mãe, criando um eixo cósmico preferencial, um indício indireto dessa origem “dentro de um buraco negro”.
Apesar de promissor, esse modelo alternativo não substitui o consenso atual. O modelo padrão cosmológico, Big Bang seguido de inflação, matéria escura e energia escura, ainda explica com precisão a radiação cósmica de fundo, abundância de elementos leves e estrutura em larga escala. No entanto, o novo modelo busca responder questões não resolvidas no modelo padrão, como a origem da inflação e a singularidade inicial.
Em resumo, a proposta de que o universo nasceu dentro de um buraco negro oferece uma narrativa consistente, baseada em física conhecida (relatividade + mecânica quântica), sem recorrer a entidades desconhecidas ou especulativas. Com publicações em periódicos peer‑reviewed e previsões observacionais plausíveis, trata‑se de uma alternativa científica rigorosa ao Big Bang tradicional, cobrindo tanto a gênese quanto a dinâmica cósmica observada hoje.

