O temor de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, possa “desligar o GPS” no Brasil se espalhou nas redes sociais após suas ameaças comerciais ao país. No entanto, é fundamental esclarecer os fatos com base em fontes confiáveis e atualizadas: a resposta técnica e legal das instituições americanas não sustenta essa hipótese.
Antes de tudo o Global Positioning System – GPS – é um sistema de navegação por satélite mantido pelo Departamento de Defesa dos EUA, mas acessível gratuitamente e para uso civil em todo o mundo. Embora no passado, existisse um mecanismo chamado “Selective Availability” usado para degradar o sinal civil — suspenso por decreto presidencial de Bill Clinton em maio de 2000 e permanentemente removido em 2007 – esse mecanismo não existe mais e os EUA afirmam não ter a intenção de reativá-lo.
O que existe, tecnicamente, é a capacidade limitada de bloquear ou interferir o sinal de GPS em áreas específicas — como foi comprovado durante testes militares dentro dos Estados Unidos — mas isso é restrito e exclusivo para fins bélicos ou de segurança nacional e jamais seria acionado para retaliar um país aliado ou uma nação soberana como o Brasil. Além disso o uso global de sistemas GNSS múltiplos, como o russo GLONASS, europeu Galileo e chinês BeiDou, garante redundância para usuários brasileiros que hoje usam receptores que se conectam a vários desses sistemas simultaneamente.

Há quem acredite que Trump “tecnicamente pode” desativar o GPS globalmente, mas isso não se confirma. O White House Science Policy afirma claramente que o GPS continua gratuito e confiável e que os EUA não planejam nem possuem capacidade para interromper o sistema globalmente. Mesmo em caso extremo de intervenção, seria um ato unilateral e altamente discriminatório com consequências geopolíticas severas — algo que contraria o propósito do sistema e a legislação americana.
Para o Brasil, caso hipoteticamente o GPS fosse interrompido parcial ou regionalmente, os impactos seriam severos em diversos setores: mobilidade urbana (apps de transporte), logística, telecomunicações, serviços financeiros (sincronização de horários), agricultura de precisão, aviação e defesa. Entretanto, uma interrupção real exigiria que os EUA tomassem uma decisão política radical, além de enfrentar resistência global e alternativas tecnológicas já amplamente adotadas no Brasil.
Em resumo: não há qualquer plano de Trump ou do governo americano para desligar o GPS no Brasil. Isso é produto de interpretações alarmistas e falta de informação técnica. Até o momento, o que existe são sanções tarifárias de 50 por cento a partir de agosto sobre produtos brasileiros — já contestadas formalmente pelo Brasil na OMC, dentro do arcabouço da Lei de Reciprocidade Econômica brasileira e uma tensão diplomática real, mas sem envolvimento com o sistema GPS.

