A Rússia bloqueou o serviço Speedtest, da empresa americana Ookla, declarou oficialmente que o acesso foi suspenso por representar “ameaças à segurança” da infraestrutura pública de internet do país. A medida, anunciada hoje por Roskomnadzor, o órgão regulador russo de comunicações, está alinhada a um decreto governamental de fevereiro de 2020 que visa proteger o segmento russo da internet de potenciais riscos externos. O serviço foi classificado como vulnerável por coletar dados sobre redes de telecomunicações que poderiam ser usados em operações de ciberataques ou espionagem digital.
Roskomnadzor recomendou aos usuários a migração para alternativas desenvolvidas na Rússia como o aplicativo ProSet (também conhecido como ProNet), lançado como uma solução nacional para teste de velocidade de conexão e qualidade de sinal. A iniciativa faz parte da estratégia russa de soberania digital, que busca reforçar a autonomia tecnológica do país e reduzir a dependência de serviços estrangeiros em meio ao isolamento dos ecossistemas digitais ocidentais.
A preocupação russa não surge do nada. Em outubro de 2024, a Academia Internacional das Comunicações (МАС), com apoio da Duma e da FSB, já havia proposto a proibição do Speedtest no território nacional. Segundo o órgão, a ferramenta da Ookla permitiria coletar informações detalhadas sobre a infraestrutura de rede, como configuração, carga, banda disponível e tipos de equipamento usados, dados que poderiam ser reunidos por agências de inteligência dos Estados Unidos para planejar ataques sofisticados, inclusive DDoS direcionados.
Mesmo com apoio político e de segurança, especialistas russos alertaram que implementar um bloqueio efetivo do Speedtest poderia ser tecnicamente desafiador. O serviço é amplamente integrado nos sistemas dos principais operadores e utiliza milhares de servidores globalmente. Tentar removê-lo das redes poderia provocar impactos na infraestrutura da internet doméstica e no acesso dos usuários ao serviço.
A justificativa oficial de Roskomnadzor refere-se ao decreto federal nº 127 de 12 de fevereiro de 2020, que autoriza medidas restritivas contra fontes consideradas perigosas à operação das redes públicas de comunicação e ao segmento russo da internet. Segundo as autoridades, Speedtest opera fora dos padrões estabelecidos de segurança e coleta dados sensíveis que transitam por servidores estrangeiros, incluindo localização, endereço IP do usuário, provedor, velocidade de conexão e métricas de desempenho, contrariando leis locais de proteção de dados pessoais.
Com o bloqueio, os cidadãos russos ficam impedidos de usar livremente uma das plataformas de teste de velocidade mais populares do mundo. A Ordnung recomenda o uso de softwares nacionais como Linkmetr, QMS da Rostelecom e Megabitus da TelecomDaily, como alternativas autorizadas para medir a qualidade da conexão à internet.
Especialistas em cibersegurança chamam atenção para o impacto dessa política: a substituição por ferramentas domésticas pode reduzir a visibilidade dos usuários sobre o desempenho real da internet, dificultar comparações com padrões internacionais e limitar a transparência do mercado. Já organizações de direitos humanos, como a Human Rights Watch, alertam que essas ações fazem parte de um movimento de controle cada vez mais rigoroso da infraestrutura digital russa, com maiores riscos de censura, monitoramento e violação da privacidade dos cidadãos.
O bloqueio do Speedtest reforça um padrão de ações coordenadas do governo russo desde 2022, que incluem restrições a plataformas como Facebook, Instagram e WhatsApp e a pressão para adoção de aplicativos nacionais de comunicação como o MAX. Em conjunto, essas medidas compõem um esforço contínuo de isolamento do ecossistema digital russo acompanhado de leis que criminalizam condutas consideradas extremistas e restringem o uso de dados pessoais online
Este bloqueio deixa claro que, para a Rússia, não se trata apenas de coibir o uso de ferramentas externas, mas de assertividade política e de segurança nacional, marcando um importante passo no projeto de promover uma internet soberana e controlada em termos de tecnologia e informação.


