Nos últimos anos, a preservação dos rinocerontes, espécies ameaçadas pela caça furtiva motivada pelo alto valor de seus chifres, ganhou um reforço inovador por meio da ciência nuclear. A chamada Rhisotope Project trata-se de uma iniciativa liderada por pesquisadores da University of the Witwatersrand, na África do Sul, em cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), que visa inserir isótopos radioativos em chifres de rinocerontes viventes de forma segura e rastreável.
Desde 2021, o projeto reuniu colaboradores do Texas A&M, da Universidade de Witwatersrand e da Colorado State University para desenvolver essa técnica. Após um período de estudos, que incluiu modelagens, testes de detecção e avaliações de segurança, chegou-se à fase de testes com animais reais. Cerca de vinte rinocerontes no Waterberg Biosphere Reserve, área protegida da UNESCO na província de Limpopo, receberam baixos níveis de radioatividade em seus chifres. Exames veterinários e testes de dosimetria biológica — analisando possíveis danos às células sanguíneas — confirmaram que os animais não foram prejudicados.

O objetivo central dessa abordagem é duplo. Primeiro, tornar os chifres menos desejáveis ao mercado negro. Segundo, habilitar esses chifres a serem facilmente detectados por detectores de radiação já operacionais em portos, aeroportos e fronteiras ao redor do mundo — principalmente aqueles projetados para identificar material nuclear contrabandeado. Mesmo um chifre irradiado em baixo nível foi capaz de disparar alarmes em simulações com contêineres de transporte.
Em meados de 2025 o projeto alcançou um marco importante com a injeção de cinco novos rinocerontes, sinalizando o início de uma implementação mais ampla. Estima-se que o método deva durar cerca de cinco anos por animal, dispensando procedimentos recorrentes como a remoção parcial do chifre (dehorning), que exige repetição a cada 18 ou 24 meses.
Apesar da animação geral, algumas organizações de conservação levantam questões válidas. A atividade poderia não impedir o ato de caça em si: caçadores furtivos menosprezam o risco, e o real alcance dos detectores varia conforme o local de entrada ou saída do contrabando. Há ainda a preocupação com os custos e a logística de aplicar o método em números suficientes de rinocerontes para tornar o impacto significativo.
Atualmente, a situação dos rinocerontes aponta para uma perda dramática: de um milhão de exemplares no início do século XX, restam cerca de 27 000 hoje, dos quais aproximadamente 16 000 estão na África do Sul — país que perdeu cerca de 500 indivíduos por ano para caça ilegal. Nesse contexto, a técnica surge como ferramenta adicional e inédita no combate ao tráfico desses animais.
Em resumo, a aplicação de tecnologia nuclear na conservação do meio ambiente, por meio de detecção automática e redução de valor de mercado para produtos ilegais, representa um novo paradigma em estratégias de proteção. O sucesso do Rhisotope Project pode ampliar o uso dessa abordagem para outras espécies ameaçadas, incluindo elefantes e pangolins, mas sua eficácia dependerá de ampla adoção, colaboração internacional e vigilância contínua sobre os impactos práticos.

