A Malásia está impondo novas restrições severas à expansão de data centers e ao tráfego de chips de inteligência artificial de alto desempenho. A mudança é parte de uma estratégia para equilibrar pressões internas — como limitações de recursos de eletricidade e água — com exigências externas, especialmente dos Estados Unidos, de evitar que chips sensíveis cheguem indiretamente à China. Essas medidas alteram o papel da Malásia como um dos hubs mais promissores de infraestrutura digital na Ásia-Sudeste.
Recentemente, o governo malaio obrigou que exportações, transbordos e trânsitos de chips de IA fabricados nos EUA sejam submetidos a uma permissão (“Strategic Trade Permit”, ou STP). Esse requisito cobre chips de alto desempenho, como os da Nvidia, que são essenciais para treinar modelos avançados de inteligência artificial. A justificativa oficial inclui preocupações com desvio de uso, pressão internacional dos EUA, e preocupações ambientais — por exemplo sobre uso de água para resfriamento, carga na rede elétrica, impacto de emissões se for uso de energia não renovável.
O estado de Johor, no sul da Malásia, onde está concentrado grande número de data centers, já vinha aprovando muitos projetos: em 2024 foram oficiais dados para aproximadamente 42 projetos de data centers aprovados, no valor de cerca de 164,45 bilhões de ringgit malaio. Esses projetos representavam sozinho cerca de 78,6% da capacidade total de TI operacional do país. Apesar disso, Johor começou a rejeitar propostas que não atendem critérios de sustentabilidade — cerca de 30% das solicitações foram negadas por falharem em demonstrar uso responsável de água e energia.
O governo federal, por meio de ministérios como o de Comércio, Indústria e Inovação (“Ministry of Investment, Trade and Industry”, MITI), também instituiu regras para controlar o uso dos chips. Além da exigência de permissão para exportação/transporte/transbordo, há investigações em curso sobre empresas chinesas que estariam usando data centers na Malásia para treinamento de modelos grandes, com hardware Nvidia.
Especialistas observam que essas novas restrições complicam o acesso da China aos chips mais avançados fabricados nos EUA, chips esses submetidos a restrições de exportação. Embora existam alternativas chinesas, elas até agora não têm o mesmo desempenho para os modelos de IA mais exigentes, o que torna o setor vulnerável às políticas externas.
Do ponto de vista prático, isso significa que empresas que desejam construir ou operar data centers de grande porte na Malásia precisam comprovar capacidade técnica de gestão de energia e de consumo sustentável, cumprir exigências regulatórias mais rígidas, e obter licenças específicas para transações com chips sensíveis. Projetos que antes seriam aprovados mais livremente agora estão sujeitos a comitês de avaliação.
No âmbito internacional, a Malásia está respondendo a uma combinação de incentivos e pressões. Os EUA estão preocupados com a possibilidade de chips avançados para IA serem exportados para empresas chinesas via jurisdições “neutras”. As regras americanas de exportação de chips (especialmente para modelos como os da Nvidia) incluem exigências para licenciamento e verificação de destino. A Malásia, para evitar entrar em conflito com essas regras ou criar brechas, está ajustando sua legislação interna para impor maior rastreabilidade.
As implicações são múltiplas. Para a China pode haver atraso ou elevação de custos ao desenvolver e treinar modelos de IA mais avançados. Para empresas internacionais de tecnologia ou de computação em nuvem, aumenta o custo regulatório de operar na Malásia, especialmente se comercializam serviços ou hardware que dependem de chips de IA de alta performance. Para a Malásia há tanto riscos como oportunidades: risco de investimento diminuir se o ambiente regulatório parecer imprevisível; oportunidade de reforçar a imagem como local responsável para data centers, atraindo investimentos que valorizem sustentabilidade e conformidade.

