Um julgamento crucial contra o Google começou em Alexandria, Virginia, com o governo dos Estados Unidos buscando impor medidas para desfazer partes do império de publicidade on-line da empresa. O Departamento de Justiça dos EUA (DOJ), acompanhado por um grupo de estados, acusa o Google de manter monopólios ilegais nos mercados de tecnologia de anúncios que conectam editores de sites, anunciantes e intermediários.
Em abril de 2025, a juíza Leonie Brinkema determinou que o Google detém poder de monopólio ilegal em dois mercados específicos: servidores de publicidade para editores (publisher ad servers) e mercados de leilões de anúncios (ad exchanges). A juíza considerou que esses mercados foram estruturalmente dominados pela empresa de forma que dificulta a competição e prejudica editoras, anunciantes e o funcionamento do ecossistema de publicidade digital. Por outro lado, foi rejeitada a alegação de monopólio em um terceiro mercado reivindicado pelo governo: os chamados “advertiser ad networks” (redes de anunciantes).
Com base nessa decisão de responsabilidade (“liability phase”), iniciou-se em 22 de setembro de 2025 a fase de remédios (“remedies trial”), em que se debaterá quais reformas ou desmembramentos são necessários para restaurar a concorrência. O governo exige que o Google venda sua plataforma de troca de anúncios chamada AdX e seu servidor de anúncios para editores, atualmente conhecido como DFP (DoubleClick for Publishers ou parte do Google Ad Manager). Também propõe que o mecanismo de leilão usado pelo Google para determinar vencedores nos leilões de anúncios seja aberto, ou seja disponibilizado como software de código aberto.
O Google, por sua vez, argumenta que os pedidos de desmembramento vão além do que foi comprovado pela juíza Brinkema. Alega que tais medidas seriam impraticáveis, que gerariam enorme insegurança no mercado e prejudicariam tanto editores quanto anunciantes. A empresa propõe em vez disso remédios comportamentais, como garantir acesso em tempo real (“real-time bidding”) a concorrentes para determinados dados, ajustes contratuais e abertura de transparência em alguns processos, sem necessariamente forçar a venda de suas principais ferramentas.
Além disso esse caso faz parte de um momento de pressão regulatória intensa sobre grandes empresas de tecnologia nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. Casos semelhantes enfrentados pelo Google em mercados de busca e navegadores já resultaram em decisões que condenaram práticas monopolistas ou forçaram ajustes nos seus contratos e licenças.
A importância desse julgamento reside no fato de que boa parte da receita do Google depende de sua plataforma de anúncios. Interferir estruturalmente em partes dessa cadeia pode alterar como as ofertas de anúncios funcionam, os custos para anunciantes, o que os editores recebem, e até como os usuários veem publicidade on-line. Também servirá de precedente para como sejam avaliadas práticas semelhantes em empresas de tecnologia que integram múltiplas camadas de infraestrutura digital.

