No último mês, o Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, o maior e mais movimentado do Brasil, foi forçado a suspender pousos e decolagens em pelo menos duas ocasiões por causa da presença de drones não autorizados no espaço aéreo. Os incidentes, registrados em 7 e 8 de junho de 2025, colocaram em risco centenas de voos e milhares de passageiros, levantando um alerta urgente sobre a crescente ameaça representada pelo uso indevido desses equipamentos.

De acordo com a GRU Airport, administradora do aeroporto, os drones foram detectados próximos às pistas, forçando o acionamento imediato dos protocolos de segurança. A Polícia Federal e a Força Aérea Brasileira (FAB) foram chamadas para investigar os casos, mas até o momento, os autores não foram identificados publicamente. As operações foram normalizadas após algumas horas, mas os prejuízos operacionais e a insegurança deixaram um rastro preocupante.
O uso indevido de drones em áreas críticas, como aeroportos, usinas, presídios e até hospitais, é um fenômeno global. Em países como Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos, casos semelhantes levaram à criação de legislações mais rígidas e ao investimento em tecnologias de neutralização de drones — como radares, interferência de sinal (jamming) e captura com drones defensivos.
No Brasil, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) regulamentam o uso de drones, exigindo o cadastro dos equipamentos e o cumprimento de regras específicas, como altitude máxima, distância mínima de pessoas e áreas restritas ao voo. No entanto, a fiscalização ainda é limitada, e criminosos têm se aproveitado da tecnologia acessível para sabotar serviços ou facilitar atividades ilegais, como contrabando e espionagem.

Em entrevista à CNN Brasil, o ex-chefe do Cindacta II, brigadeiro Ary Bertolino, explicou que a detecção de drones exige um sistema sofisticado de radares de baixa altitude, já que esses aparelhos voam abaixo da cobertura dos radares convencionais. Segundo ele, “o Brasil precisa acelerar a adoção de tecnologias anti-drone nos principais centros urbanos e de infraestrutura sensível”.
Entre as soluções tecnológicas já adotadas em países como Israel e Reino Unido estão os sistemas de detecção por radiofrequência, câmeras térmicas e sensores acústicos, que identificam a aproximação de drones não autorizados e ativam protocolos automáticos de resposta, como a neutralização via redes lançadas por outros drones, armas eletromagnéticas ou bloqueadores de GPS.
A startup brasileira XMobots, especializada em tecnologia de drones, afirma que está desenvolvendo soluções para o setor de segurança, incluindo inteligência artificial para reconhecimento de padrões de voo suspeitos. Já a SAS Tecnologia, em parceria com a Força Aérea Brasileira, iniciou testes com sistemas de interferência e derrubada segura de drones em áreas militares.
A lacuna legal, no entanto, ainda é um entrave. Em entrevista ao portal G1, o advogado criminalista e especialista em direito digital Luiz Augusto D’Urso afirmou que a legislação brasileira precisa ser atualizada para prever penalidades mais duras para quem opera drones em áreas proibidas. “Hoje, o indivíduo pode até ser indiciado por atentado à segurança de transporte aéreo, mas não há uma legislação específica sobre o uso criminoso de drones”, disse.
Quanto à identidade dos responsáveis pelos ataques em Guarulhos, nenhuma organização foi oficialmente responsabilizada até o momento. No entanto, autoridades suspeitam que os atos podem estar ligados a protestos ou testes criminosos de sabotagem, segundo fontes da Polícia Federal ouvidas em off pelo jornal O Estado de S. Paulo.
Diante desse cenário, especialistas recomendam ações coordenadas entre o governo, empresas de tecnologia e operadores de infraestrutura crítica. A adoção de sistemas de vigilância automatizada, integração com o SARPAS (sistema de autorização de voos da FAB) e campanhas de educação sobre o uso responsável de drones são passos urgentes para evitar que esse tipo de ameaça se repita com consequências ainda mais graves.
Enquanto as investigações seguem em sigilo, o episódio em Guarulhos serve como um alerta claro: drones não são apenas brinquedos tecnológicos — nas mãos erradas, podem se tornar armas silenciosas contra o funcionamento do país.
