Como IA e satélites estão salvando vidas em favelas indianas por causa do calor

Nos últimos anos, a Índia passou a empregar inteligência artificial (IA) e imagens de satélite para mapear, com precisão sem precedentes, a vulnerabilidade das áreas urbanas ao calor — chegando até o nível de edifícios individuais. Essa iniciativa, conduzida por organizações como SEEDS, Chintan, ATREE e apoiada por gigantes de tecnologia como Microsoft e Google, representa uma revolução na forma como as cidades indianas monitoram, compreendem e enfrentam ondas de calor extremas, cada vez mais frequentes devido às mudanças climáticas.

O projeto “Sunny Lives”, desenvolvido pela ONG SEEDS em parceria com o laboratório AI for Good da Microsoft e a consultoria Gramener, aplica IA para analisar mais de uma dezena de parâmetros geoespaciais — como tipo de cobertura dos telhados, densidade de construção, proximidade de corpos d’água e vegetação — em escala de edifício. O modelo usa imagens de satélite, dados de solo e aprendizado de máquina para classificar construções em zonas de risco térmico, gerando mapas coloridos, acessíveis por app móvel, que mostram onde a temperatura interna pode ultrapassar os 45 °C, especialmente em casas com telhado de zinco ou plástico. Essa tecnologia foi aplicada em favelas de East Delhi, onde trabalhadores de reciclagem lidam com calor intenso e enfrentam risco de desidratação e problemas de saúde — fenômenos que ficaram evidentes durante o alerta vermelho emitido pelo IMD (Departamento Meteorológico da Índia) em 11 de junho, com temperaturas superiores a 45 °C e sensação térmica de até 54 °C.

Sensores para medição do calor sendo instalados

Complementarmente, pesquisadores do ATREE analisaram um setor da zona norte de Bengaluru, onde identificaram variações de até 9 °C na temperatura da superfície (land surface temperature) dentro de uma área de apenas dois quilômetros quadrados. Essa heterogeneidade térmica, causada por contrastes entre edificações, densidade urbana e cobertura vegetal, demonstra que planos de ação contra o calor devem ser construídos com base em dados hiperlocais, não apenas em alertas macro.

Os dados gerados por esses sistemas — mapas de superfície, índices de vulnerabilidade e temperatura “wet-bulb” (que define o impacto combinado de calor e umidade) — permitem intervenções cirúrgicas: instalação de abrigos temporários, distribuição de água, modificação de horas de mercado e jornada de trabalho em áreas críticas, ações de arborização ou aplicação de “cool roofs” (pinturas refletivas ou revestimentos especiais). Em Kochi, por exemplo, o WRI Índia tem apoiado estratégias semelhantes de mapeamento urbano com imagens do Sentinel‑2, combinadas a campanhas comunitárias para plantar árvores e monitorar sombras.

Apesar da sofisticação técnica, o uso desses sistemas enfrenta entraves significativos. Muitos planos de ação contra o calor (Heat Action Plans) carecem de financiamento adequado, suporte legal e obrigatoriedade institucional — apenas oito estados os consideram desastre oficial. Há, ainda, um déficit de monitoramento hiperlocal — como equipamentos de temperatura no solo ou sensores internos — que limitaria a verificação de dados detectados por satélites. Especialistas sublinham que é necessária formação de equipes locais, integração com planos urbanos e leis que tornem obrigatórias ações preventivas.

Um exemplo promissor vem de Ahmedabad, pioneira na Índia em planejar e implementar ações coordenadas contra ondas de calor desde 2013 — incluindo estações temporárias de monitoramento, mapas de satélite e sistemas de alerta térmico precoce. Ainda assim, para replicar esse modelo em megacidades como Mumbai, Chennai ou Delhi, será crucial aumentar o acesso a tecnologias de IA e satélites em cidades de médio e pequeno porte, bem como envolver a comunidade — desde voluntários mapeando riscos até crianças aprendendo a identificar zonas de calor extremo.

A adoção desses sistemas representa um avanço notável, especialmente em favelas onde metodologias convencionais falham. Ao identificar edifícios e bairros em risco — por causa do material dos telhados, falta de sombra ou ventilação precária —, as autoridades e ONGs podem atuar com foco e precisão. Porém, a efetividade depende da institucionalização dessas informações: sem verba, estrutura e respaldo legislativo, nenhum mapa será capaz de salvar vidas em ondas de calor que devem se tornar cada vez mais intensas com a aceleração das mudanças climáticas.