Desde 1994, Brasil e China mantêm uma cooperação contínua no programa China–Brazil Earth Resources Satellite (CBERS), com cinco satélites orbitando em órbita baixa para monitoramento terrestre. No entanto, este ano marca um avanço histórico: a assinatura formal do acordo para construir o CBERS‑5, o primeiro satélite da série a operar em órbita geoestacionária — ou seja, “fixo” sobre uma região do planeta — com foco no território brasileiro. O anúncio ocorreu durante a Cúpula dos BRICS no Rio, em 5 de julho de 2025, durante encontro entre o presidente Lula e o primeiro‑ministro chinês Li Qiang.
O satélite, que será posicionado a cerca de 36 mil km de altitude, terá como missão o monitoramento meteorológico e ambiental, ampliando a capacidade de observação em tempo real sobre o Brasil. Diferentemente dos modelos anteriores, baseados em órbita baixa, o CBERS‑5 oferecerá cobertura contínua e precisa, permitindo antecipar eventos extremos, tais como tempestades, secas e enchentes. A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, ressaltou que “esse será o primeiro satélite geoestacionário desenvolvido pelo Brasil”, inserindo-o num seleto grupo de menos de dez países com acesso a essa tecnologia.

A elaboração do projeto foi iniciada com a assinatura de uma declaração de intenções entre os governos em junho de 2024, validando a construção de um satélite específico para dados meteorológicos superiores ao CBERS‑4A e seus antecessores. Em abril de 2025 houve nova rodada de negociações capitaneadas pelo MCTI — com participação do INPE e CNSA (China National Space Administration) — fortalecendo o plano e alinhando cronogramas antes da Cúpula dos BRICS.
O orçamento estimado para o CBERS‑5 é da ordem de US$ 51 milhões, investidos igualmente entre Brasil e China. No mesmo montante será desenvolvido o CBERS‑6, que permanecerá em órbita baixa, focado em sensoriamento terrestre convencional com Radar de Abertura Sintética (SAR). A previsão de lançamento do CBERS‑5 é para o ano de 2030, enquanto o CBERS‑6 deve ser lançado em 2028.
Em termos institucionais, o CBERS‑5 representa um marco para o Brasil. Será produzido por meio da transferência de tecnologia, capacitando técnicos brasileiros no processo de desenvolvimento e operação de sistemas espaciais de alta complexidade — conforme reforçado pelos acordos recentes. Além disso, os dados transmitidos pelo satélite serão compartilhados com países da América Latina e Caribe, reforçando a posição do Brasil como polo de consolidação de um centro regional de previsão climática.
Tecnicamente, a operação em órbita geoestacionária permitirá cobertura contínua das áreas monitoradas — um diferencial em relação à órbita baixa, que requer múltiplos satélites para garantir revisitas frequentes. Desde o CBERS‑1 (1999) até o CBERS‑4A (2019), a série teve um papel crucial no combate ao desmatamento, na agricultura e no monitoramento hídrico. O CBERS‑5, porém, inaugurará nova etapa ao permitir vigilância constante de fenômenos climáticos e suporte mais rápido à gestão de crises.
Apesar das vantagens, desafios permanecem. A infraestrutura de lançamento no Brasil — notadamente na base de Alcântara — ainda depende de modernizações, e discussões envolvendo acordos internacionais (como o Tratado MTCR com os EUA) podem influenciar a logística de lançamento. A China, tradicionalmente, realiza lançamentos em seu território, mas existem conversas em curso para possíveis operações a partir de Alcântara, com implicações estratégicas e diplomáticas.
Em resumo, o CBERS‑5 representa um salto gigantesco. O satélite geoestacionário amplia a soberania tecnológica do Brasil em sensoriamento e monitoramento climático, fornece ferramentas valiosas para setores como agronegócio, defesa civil e gestão ambiental, e consolida uma cooperação Sul‑Sul de alto impacto, combinando desenvolvimento científico a impacto social e econômico.

