Em novembro de 2023, a startup Humane Inc., fundada pelos ex-Apple Imran Chaudhri e Bethany Bongiorno, lançou ao varejo o ambicioso AI Pin, um dispositivo vestível que prometia atuar como um “smartphone sem tela”. Equipado com microfone, câmera e projetor laser que exibia informações na mão, operando via voz com integração a GPT‑4 por parceiro como OpenAI e Microsoft, o equipamento custava US $ 699, acrescido de US $ 24 mensais de assinatura — cobrindo celular, dados e consultas à IA.

Apresentado ao mundo com pompa, incluindo demonstrações no TED Talk e na Paris Fashion Week, o AI Pin foi vendido como o início de uma “última evolução” na computação pessoal — uma promessa de liberdade da “tirania da tela” e retorno ao momento presente . Mas as avaliações foram duras: críticos como Marques Brownlee e The Verge apontaram funcionamento lento, falhas em tarefas básicas como chamadas ou emails, superaquecimento e baixa autonomia da bateria. O jornal alemão Bild chegou a classificá-lo como “mega‑flop” após baixa absorção pelo mercado.
De fato, embora a Humane inicialmente esperasse vender cerca de 100.000 unidades, obteve apenas cerca de 10.000 até agosto de 2024, com quase 30% voltando — retornos superando as vendas. Mesmo após uma redução de preço para US $ 499 em outubro de 2024, os ajustes não revertendo a baixa adesão.
Em fevereiro de 2025, a situação se agravou: a startup foi adquirida pela HP por US $ 116 milhões, mas excluindo o negócio de hardware AI Pin. Logo após, decidiu descontinuá-lo – e em 28 de fevereiro de 2025, os AI Pins existentes deixaram de funcionar, sem suporte aos usuários mais antigos . Somente quem comprou após 15 de novembro de 2024 pôde solicitar reembolso até 27/2/2025; os demais ficaram sem retorno financeiro .

O que foi real, o que aconteceu e por que importa
- O conceito era original: criar um “smartphone sem tela” que projetasse informações na mão e operasse por IA via voz — uma proposta única no mercado.
- O preço e modelo de assinatura eram caros: US $ 699 + US $ 24/mês, o que pesou diante de dispositivos tradicionais que já oferecem configurações superiores.
- A adoção falhou: vendas apenas modestas, altas taxas de devolução, críticas técnicas e elogiáveis ideias de design, como a “Trust Light” que indicava uso de câmera/microfone.
- A execução fragilizou a proposta: a tecnologia ainda não atendia aos objetivos da empresa e usuários esperavam um mínimo de confiabilidade; o resultado foram críticas contundentes .
- Fim rápido, menos de um ano após lançamento, mostrando limites de startups ao substituir smartphones consolidados.
Por que isso é relevante?
O AI Pin marcou o início de um debate: tecnologias vestíveis não precisam replicar interfaces de tela, mas sua adoção depende de maturidade técnica e real utilidade. O caso AI Pin, apoiado por ex-executivos da Apple e investidores como Sam Altman, era considerado promissor, porém falhou na transição do hype para a usabilidade cotidiana.
Sua queda abrupta — com suporte encerrado em fevereiro de 2025 — é um alerta estratégico e tecnológico: visão disruptiva não garante sucesso. Mesmo com tecnologia de IA avançada e interface elegante, o usuário comum exige estabilidade, rapidez, autonomia e bom custo‑benefício.
É possível que a HP IQ, nova divisão de IA da HP que absorveu o projeto, replique ideias para outro hardware ou software futuro — mas por ora, o AI Pin existe como um experimento intenso, bem-intencionado, porém prematuro.
