LibreOffice acusa Microsoft de usar OOXML pra criar lock-in

A The Document Foundation, responsável pelo LibreOffice, lançou um forte comunicado acusando a Microsoft de empregar deliberadamente formatos de arquivo excessivamente complexos como estratégia de lock-in, ou seja, para manter os usuários presos ao ecossistema Office, dificultando a migração para alternativas livres como o OpenDocument Format (ODF). A crítica foi publicada em seu blog oficial em 21 de julho de 2025.

Segundo a fundação, a Microsoft utiliza o padrão Office Open XML (OOXML) — que dá origem aos arquivos .docx, .xlsx e .pptx — de forma propositalmente excessiva, tornando sua estrutura tão confusa que se torna praticamente impossível para outros programas interpretarem fielmente. Embora ambos (ODF e OOXML) sejam tecnicamente arquivos ZIP contendo documentos XML, a diferença está na forma como esse XML é organizado: “profundamente aninhado”, com nomes pouco intuitivos, diversas extensões opcionais, imports de namespaces complexos e documentação que deixa a desejar. Para desenvolvedores de código aberto, a tarefa de implementar suporte completo ao OOXML sem acesso às ferramentas internas da Microsoft é comparada por eles a “tapear quem tenta trocar de trem num sistema ferroviário em que apenas a Microsoft detém as chaves de controle”.

Essa abordagem, segundo o texto, transforma um meio de interoperabilidade — o XML — em barreira. Enquanto o formato aberto ODF, utilizado pelo LibreOffice, foi criado com o objetivo de ser livre de controle de qualquer empresa, o OOXML é desenhado para suportar todas as funcionalidades do Office, reforçando o uso das soluções da Microsoft. Em palestras e entrevistas, representantes da Document Foundation enfatizam que a complexidade não decorre de necessidade técnica, mas de estratégia de mercado: “Eles estão sabotando a interoperabilidade para impedir que ferramentas alternativas funcionem corretamente”.

O timing da acusação é relevante: ocorre num momento em que governos e empresas em países como Alemanha, Dinamarca e Suécia avaliam migrar para software livre e adoção do ODF, como forma de promover soberania tecnológica. A Document Foundation apresentou o argumento de que essa prática da Microsoft é uma manobra deliberada para manter usuários e instituições retidas pelo Office, mesmo que isso complique desnecessariamente o ecossistema de TI ao redor do software.

A acusação da LibreOffice é respaldada por relatos de desenvolvedores que mostram que mesmo funcionalidades básicas (como fórmulas, formatação e imagens) em documentos .docx podem gerar erros expressivos quando abertos no LibreOffice, devido à complexidade do OOXML. Há ainda quem aponte que até a própria Microsoft enfrenta inconsistência dentro de sua suíte: um .docx criado no Word pode não aparecer da mesma forma no Excel ou PowerPoint, mostrando que, se nem o Office é totalmente compatível, o desafio para concorrentes é ainda maior.

Por sua vez, a litigância da Document Foundation se alinhou com críticas anteriores feitas por líderes de software livre como Richard Stallman, que já denunciou as limitações impostas pelos formatos da Microsoft, apontando riscos às liberdades digitais, segurança e privacidade.

A Microsoft, tradicionalmente, defende que a complexidade do OOXML se justifica pela necessidade de compatibilidade retroativa, já que seus arquivos remontam aos anos 1990, e que fornecer suporte a esses padrões em ferramentas alternativas exigiria decisões empresariais e não deficiências técnicas. Ainda assim, o episódio reacende o debate global entre formatos abertos e proprietários, entre transparência e controle, especialmente em uma era onde a soberania dos dados está em foco.