Nos últimos meses, denúncias emergiram globalmente sobre o uso indevido de óculos inteligentes, especialmente os Ray‑Ban Meta, para gravar mulheres sem autorização, configurando uma séria violação de privacidade. Relatos recentes destacam que influenciadores e “pickup artists” têm explorado essa tecnologia para captar vídeos de interações com mulheres em praias, academias, ruas e transportes públicos, muitas vezes sem que elas percebam que estão sendo filmadas.
Em Sydney e Melbourne, na Austrália, uma investigação da polícia de New South Wales reflete o peso do problema: um TikToker identificado como “Sayed” teria publicado diversos vídeos de mulheres gravados com esses óculos, sem consentimento. Algumas vítimas relataram angústia ao descobrirem que, semanas depois, o conteúdo fora exposto publicamente e permanecer online, mesmo após solicitações de remoção.

O comportamento do influenciador Christopher John, conhecido como “rizzzcam”, foi igualmente notado em San Diego e Sydney. Ele foi flagrado usando os óculos Ray‑Ban Meta — com valor aproximado de US$ 379–449 — para gravar mulheres enquanto realizava suas “street interviews”. Em um incidente recente, um transeunte o confrontou ao perceber a gravação sem consentimento, resultando em críticas e discussões sobre a ética dessa prática.
A tecnologia empregada nesses óculos inclui câmeras discretas e microfones com captação de áudio, além de um pequeno LED branco que acende quando a gravação está ativa. No entanto, esse indicador costuma passar despercebido, especialmente em situações de luz intensa ou quando o usuário o cobre intencionalmente . Um estudo da Monash University, por exemplo, identificou que cerca de 36 % dos usuários de smart glasses menores de 25 anos admitiram o uso desses dispositivos de forma “proibida”, sem consentimento.
Especialistas em privacidade levantam preocupações sérias. A International Bar Association alerta que tais dispositivos podem ser usados para gravar pessoas ou coletar dados em tempo real sem que haja transparência, exigindo uma revisão urgente das leis de privacidade. Já a RMIT University, na Austrália, ressalta que a combinação de câmeras ocultas e IA avançada pode permitir vigilância não autorizada e até doxing — identificação de pessoas em tempo real — sem nenhum tipo de consentimento.
No plano legal, os casos em New South Wales poderiam ser enquadrados na Surveillance Devices Act, que proíbe gravação ou publicação de conversas privadas sem o consentimento de todas as partes, com penas de até cinco anos de prisão. Em Barcelona, também houve prisão de um homem que filmou mulheres com esses óculos como parte de um curso de sedução, tendo identificado mais de 300 gravações sem autorização, algumas com conteúdos íntimos, que chegaram a 700 000 visualizações no TikTok.
Em outro caso na Europa, uma mulher em Hamburgo relatou ter sido filmada em uma cena cotidiana à beira de um lago; ela só descobriu a gravação após recebê-la enviada por um amigo, exibindo o comportamento inapropriado do autor, justamente o uso dos óculos Meta .
Esses relatos intensificaram o debate sobre o papel das empresas que produzem essa tecnologia. A Meta defende que há um LED visível e impede gravações se ele for bloqueado, e publica diretrizes de uso responsável que incluem desligar o dispositivo em ambientes sensíveis ou ao ser solicitado. Contudo, especialistas e legisladores demonstram preocupação de que tais medidas sejam insuficientes, sobretudo considerando “golpes” para mascarar o LED e a capacidade de transmissão ao vivo sem que ninguém perceba .
A advogada Gina Martin destaca o potencial de “facilitação da vigilância sexual” com esses dispositivos, pouco visíveis e de fácil acesso . Já o International eSafety Commissioner na Austrália teme que os óculos se tornem ferramentas em contextos de violência, abuso doméstico e exploração infantil.

